Proteína pode indicar predisposição a doenças cardiovasculares

Proteína pode indicar predisposição a doenças cardiovasculares

Medir o nível de uma enzima denominada PDIA1 no plasma sanguíneo pode se tornar uma forma de diagnosticar a predisposição a doenças cardiovasculares até mesmo em pessoas saudáveis – que não apresentam fatores de risco como obesidade, diabetes, colesterol alto ou tabagismo.

É o que sugere um estudo publicado na revista Redox Biology por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Butantan.

A investigação foi conduzida no âmbito do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e sediado no Instituto de Química da USP.

O trabalho foi realizado durante o doutorado de Percíllia Victória Santos de Oliveira com bolsa da FAPESP.

O grupo analisou amostras de plasma sanguíneo de 35 voluntários saudáveis, sem histórico de doenças crônicas ou agudas. Nenhum era fumante nem usava drogas ou medicamentos de uso contínuo.

O plasma foi coletado de 10 a 15 vezes, com intervalos variáveis, em um período de 10 a 15 meses. Na maior parte dos casos, os níveis de PDIA1 circulante mudavam muito pouco dentro de cada indivíduo. Em um conjunto de cinco voluntários, a PDIA1 foi medida três vezes em um período de nove horas. Também nesse caso a variação dos resultados foi baixa

Além disso, foram medidos os níveis de PDIA1 em 90 amostras de um banco de plasma de pacientes com doenças cardiovasculares em fase crônica. Nessa análise, os níveis da proteína foram sempre baixos.

Os autores fizeram em seguida diversos estudos adicionais correlacionando os valores plasmáticos de PDIA1 com assinaturas proteômicas (perfil de proteínas) do plasma daquele indivíduo. Células endoteliais vasculares em cultura tratadas com plasma pobre em PDIA1 tiveram a adesão e migração celular retardada em comparação às que receberam plasma rico em PDIA1.

Esses resultados levaram à hipótese de que os níveis de PDI1A no plasma sanguíneo podem ser uma janela capaz de revelar um conjunto de proteínas plasmáticas associadas à função endotelial, indicando uma possível propensão a doenças cardiovasculares.

Mesmo quando levadas em conta variáveis sabidamente ligadas ao risco dessas doenças, como idade, níveis de triglicérides e colesterol, verificou-se que não há correlação da PDI com esses fatores.

Marcador de câncer

Em um outro artigo, publicado na revista Cell Death & Disease, o grupo de Laurindo mostrou como a mesma enzima PDIA1 atua na regulação da produção de espécies reativas de oxigênio, também conhecidas como radicais livres.

Apesar de ter funções protetoras do organismo em níveis normais, em excesso essa produção é um dos fatores que levam à geração de tumores. O estudo é parte do doutorado de Tiphany Coralie de Bessa na FM-USP, com bolsa da FAPESP.

A PDIA1 é um conhecido biomarcador de mau prognóstico em certos tumores e de resistência à quimioterapia. O grupo de Laurindo descreveu, em trabalhos anteriores, o papel da molécula na regulação da proteína NOX1 em vasos sanguíneos, uma das maiores produtoras de espécies reativas de oxigênio, como superóxido e peróxidos formados secundariamente.

Neste novo estudo, os pesquisadores usaram células de tumor colorretal – conhecidas pela elevada expressão de NOX1. Foram usadas três linhagens distintas. Uma delas (HCT116) carregava uma mutação no gene KRas, comum em cerca de 30% dos tumores, não só colorretais como de próstata e de bexiga. Outra (HKE3) tinha uma forma mais branda da mutação, sem tanta atividade como a anterior. A terceira (Caco2), usada como controle, não apresentava a mutação.

Os pesquisadores constataram que nas linhagens de células tumorais com mutação na KRas havia um aumento da produção de PDIA1, principalmente na linhagem HCT116. Aparentemente, isso poderia significar uma vantagem, já que as PDI poderiam ajudar a produzir mais superóxido e peróxidos, que potencialmente ajudariam a combater o tumor.

Inibidores

Testes clínicos com inibidores de outros tipos de PDI estão sendo realizados por diferentes grupos de pesquisa no mundo. Como essas proteínas desempenham diversas funções essenciais para a sobrevivência celular, Laurindo explica que é importante entender as interações específicas das PDIs no contexto do câncer, o que possibilitará o desenho de inibidores específicos, capazes de eliminar o tumor com a mínima toxicidade para as células normais.

Fonte: Agência FAPESP