Aprendendo a viver com o mínimo: a descoberta de novas intensidades em tempos de pandemia

Aprendendo a viver com o mínimo: a descoberta de novas intensidades em tempos de pandemia

O momento dessa crise biológica é praticamente homogêneo para o mundo, mas infelizmente, em nosso país, há grande diversidade de condições de vida e aprendizagem. Eu digo aprendizagem porque esse fenômeno animal depende de uma série de recursos socioeconômicos, políticos e, principalmente, afetivos. 

Por esse motivo é importante considerar a diversidade de experiências com a pandemia ao observarmos os diferentes extratos sociais desse país. A maioria aqui, alunos e docentes, representam um dos recortes de tantas realidades brasileiras. Então, vamos lá conversar sobre o nosso contexto! 

Ouvi durante toda a minha formação que para ter aprendizagem precisa ter afeto. E conheci o sentido e a energia dessas palavras nesses 16 anos de docência. E agora? Como conservar essa energia ao ensinar sem olhar nos olhos? Todos juntos enfrentamos o novo. Novas intensidades e sensorialidades em uma lógica temporal que também se renova. A percepção do tempo, do corpo e das próprias emoções pode potencializar o poder sobre nossa própria existência apesar do retorno do antigo medo de dormir em quarto escuro. Sim, fomos tomados por incertezas! 

No entanto é possível vislumbrar algo da ordem do invisível: Viver com o mínimo mais novo, não necessariamente apenas com aquele mínimo de condições materiais de vida que já foram experimentadas por tantas famílias dos que estão me ouvindo aqui. 

Há um mínimo novo no sentido de essência. No sentido de: “Eu descobri que eu não preciso de um tanto dessas coisas que eu tenho aqui” 

E, paradoxalmente, um máximo: “Eu não sabia que precisava dessas outras tantas coisas que antes eu nem percebia”. Estão aí as diferenças de intensidades. São descobertas muito singulares que não estão nas prateleiras de mercado. Trata- se de uma nova existência. E para isso filosofia, sabedoria, luz sobre a verdade, novas sensibilidades e subjetividades. 

Esse tema de hoje esbarra em vários outros longe de serem esgotados, mas que podem ser sementes ao vento para serem germinadas depois. 

São eles: – Introspecção, novas filosofias de vida e vida prática em espaço de confinamento. – O reconhecimento e manejo das próprias emoções /crise e mudança. E esse item envolve ações: 

  • o cuidado de si 
  • vida de adulto: o efeito reparador do brincar 
  • O cultivo em pequenos espaços 
  • Reaprender a brincar/ Jogos de memória e outros desafios para a mente. 
  • A construção dos próprios brinquedos. 

Além da crise biológica, estamos em uma crise do estado. Uma crise do poder do estado, mas também uma crise do poder individual. O poder age sobre o corpo também além da subjetividade. E como pensar a nossa própria saúde mental? 

Esse tema suscitou a noção da ética do cuidado de si, desenvolvida por Foucault na década de 70 e que foi bem abordada em artigo recente (ANDRADE, GIVIGI, ABRAHÃO, 2018). Esses trabalhos mereciam uma discussão mais profunda, mas ouso esbarrar em um dos sentidos dessa concepção. 

Trata-se da importância de cuidar do cuidador. Cuidar de si é a ética para cuidar do outro. Cuidar da nossa própria vida a partir de uma posição de introspecção, sem tiranizar o outro. Olhar para si é se retirar do campo do preconceito, por exemplo. Envolve o respeito com as próprias emoções uma vez que o confinamento nos coloca diante do espelho. O cuidado de si é uma prática que faz você pensar profundamente em sua própria vida antes de cuidar do outro. E qual é a gestão atual de sua própria vida? 

E já que alunos serão cuidadores seja de gente, de papéis, máquinas ou de animais, devem ser guiados por essa ética. Mesmo quem não é da saúde, cuida de vidas direta ou indiretamente. O engenheiro civil lida com a estrutura de nossas habitações, o mecânico com o nosso deslocamento e o advogado com nossas causas terrenas que parecem impossíveis e assim por diante. 

Tudo envolve a vida. Mesmo quem lida diretamente com a morte. Isso também é vida. É a lei do tudo se transforma. E o ser humano precisa perder o medo da transformação e sentir segurança na mudança. E como fazer isso? Aí caímos no tema disparador dessa roda de conversa. 

O preparo para um mundo novo exige além de filosofia, abertura para desenvolver a criatividade e novas habilidades. É o que Winnicott (1975) denominou de espaço potencial, no qual habita a arte, o brincar e a cultura. Trata-se de um espaço mental, como se fosse uma ponte de ligação entre mundo interno e externo. É o amortecedor dos impactos causados por novas realidades. E o que pode ser um dos poderes da mudança em uma transição mais segura. 

Esse espaço mental transicional deve ser desenvolvido por atividades em geral capazes de promover relaxamento e contato com as próprias emoções. A arte sem importar com a qualidade do que se está produzindo pode ser um dos exemplos dessa função. O brincar o também pode ser revisitado pelos adultos além do que os aparelhos eletrônicos podem oferecer. Perguntem aos seus pais e avós quais eram 

os jogos não eletrônicos. Usem a internet para aprender a ficar longe dela por mais tempo! Aprender a viver com o mínimo é uma das fórmulas para desenvolver a autonomia. E, na essência desse processo, a criatividade. Quando você aprende a fazer horta em apartamento e outros pequenos espaços, você começa a experimentar o seu poder de produção e independência do sistema. Quando você fabrica um jogo ou produz outro artesanato descobre a potência de sua vida mental e habilidades. 

Tudo isso era considerado apenas lazer supérfluo. Com o tempo essas práticas foram incorporadas ao tratamento de pessoas com transtornos mentais e autenticadas pela ciência. Atualmente, fazem parte de programas de manejo do stress e reabilitação neuropsicológica. 

A adultez não deve conter o luto do brincar. Ao contrário, o brincar criativo pode ativar funções biopsíquicas importantes para o enfrentamento de crises. São recursos que tratam e previnem a perda da autonomia psíquica. Termo que encontrei para evitar falar em doença mental. 

Em momentos de pandemia, devemos evitar expressões patologizantes uma vez que o pathos – as paixões encontram-se à flor da pele. Emoções coerentes com o contexto, mas singulares apesar da causa mundial em comum. Como se tornar temperante, autêntico e ético diante do que fazemos? Em tempos de introspecção, como lidar com os próprios pensamentos e desejos diante de novos modos de existência? 

Das relações líquidas citadas por Zygmunt Bauman (2001), fomos mergulhados nas relações intensas e maciças. Há uma nova maneira de habitar. A começar pelo corpo. E isso resgatou lembranças da época durante a qual trabalhei com andarilhos. A impressão era de que não habitavam espaço algum, nem o próprio corpo. Habitar um espaço era algo terrível para alguns. 

Imagino que tem gente com sensações parecidas nesse momento de pandemia. E outras que descobriram um mundo novo e fantástico nos quatro cantos de casa. Não existe manual para quarentena, mas pode existir para vivenciar a introspecção seja na praça ou dentro de casa! 

Quais são as técnicas para o cuidado de si – mental em tempos de pandemia? Como viver as intensidades lindando com o mínimo? 

Com o mínimo de espaço, o mínimo de abraços, o mínimo de recursos financeiros e materiais? Como? A respostas são frutos de uma construção coletiva. Podem surgir desse encontro com vocês! 

Por isso eu gostaria de escutar os saberes que alguns de vocês tem desenvolvido nesse tempo. Enfim, tudo que nos ensina a viver com o mínimo. Quais são as intensidades experimentadas com esse novo formato de viver a vida? 

E falando em reaprender brincadeiras, vamos brincar com as palavras: pode ser nova forma de viver, formato ou fôrma. Então, podemos pensar em prisão ou 

liberdade dentro de casa que, por sua vez, pode gerar formas ou fôrma de viver a vida. Tudo depende da lente pela qual se vê1

Referências 

- Andrade, Eliane Oliveira de, Givigi, Luiz Renato Paquiela e Abrahão, Ana Lúcia. A ética do cuidado de si como criação de possíveis no trabalho em Saúde. Interface – Comunicação, Saúde, Educação [online]. 2018, v. 22, n. 64 [Acesso em 12 Maio 2020], pp. 67-76. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1807- 57622016.0643>. Epub 19 Out 2017. ISSN 1807-5762. https://doi.org/10.1590/1807-57622016.0643. – Bauman, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. – Winnicott, D. W. Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In D. Winnicott, O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Trabalho original publicado em 1971a). 

Autora: Viviane Vianna de Andrade Fagundes, é psicóloga, psicoterapeuta e neuropsicóloga, com mestrado em Ciências da Saúde pela UNIFESP, docente do curso de Psicologia da UniFAJ. E-mail viviane.fagundes@prof.faj.br 

Organizadoras: Profa. Ma. Ana Silvia Sanseverino Rennó – Curso de Psicologia – UniFAJ Profa. Esp. Raquel Gonçalves Silveira Alves – Curso de Psicologia – UniMAX Profa. Dra. Vanessa Cristina Cabrelon Jusevicius – Curso de Psicologia – UniFAJ Equipe responsável pelo projeto Saúde Mental em Dia